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id da página: 3946 Merton – Marta, Maria e Lázaro – Ação e Contemplação Thomas Merton

Merton Ação e Contemplação

THOMAS MERTONMARTA, MARIA E LÁZARO – O Mistério da Ação e da Contemplação


O MISTÉRIO DA AÇÃO E DA CONTEMPLAÇÃO EM NOSSO SENHOR JESUS CRISTO E NA ALMA CRISTÃ

  • A Doutrina de São Bernardo sobre a Vida Ativa e a Vida Contemplativa.
    • A reflexão sobre o grande mistério da ação e da contemplação em Nosso Senhor Jesus Cristo, revelado no Novo Testamento.
    • A superação da palavra "contemplação" pela infinita realidade da vida divina manifestada e dada em Cristo, que transcende a "fraca noção que possuímos sobre misticismo".
    • O foco posterior na contemplação, no conhecimento beatífico, infuso e adquirido, vivido pela alma de Cristo.
  • O Mistério Inefável da União do Filho com o Pai nos Evangelhos.
    • O ensinamento de que a contemplação verdadeira e perfeita se realiza na alma cristã quando:
      • Ela vive em perfeita união com Cristo na caridade do seu Espírito deificante.
      • Ela penetra com Ele no Santo dos Santos.
      • Ela se torna um só com o Pai, n'Ele, e um só com todos aqueles que estão unidos com o Pai, n'Ele.
    • A revelação do Pai invisível pelo Filho Único:
      • Citação de São João: "Deus, ninguém jamais o viu" (Jo 1, 18).
      • "O Filho único, que está no seio do Pai, Ele é que o revelou".
      • O Verbo "veio do Pai" para assumir a natureza humana, mas permaneceu no seio do Pai durante toda a sua vida terrestre.
  • A Contemplação e a União Perfeita na Alma de Cristo.
    • A alma de Cristo teve sempre a intuição mais perfeita e continuamente beatífica do Pai, de Si mesmo (o Verbo), e de sua união mútua, no Espírito Santo.
    • A compreensão de Deus n'Ele e o conhecimento de que Ele era Deus e de que Ele e seu Pai faziam um só.
    • A visão de toda a criação (passado, presente e futuro) em sua Pessoa divina:
      • Ele é o Primogênito de toda criatura.
      • "n'Ele é que todas as coisas foram criadas, as que estão nos céus e as que estão na terra, as coisas visíveis e as coisas invisíveis. . . tudo foi criado por Ele e para Ele" (Col 1, 15-16).
      • Tudo que vem de Deus estava n'Ele, pois o Pai O amou e "tudo entregou em suas mãos" (Jo 3, 35; 17, 10).
  • A Experiência Contemplativa de Jesus durante a Paixão.
    • A imagem gloriosa do Pai foi momentaneamente obscurecida na alma humana do Redentor somente durante a Paixão.
    • Mesmo durante a Paixão, Ele era Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.
    • Sua experiência, em sentido especial, foi contemplativa: "a experiência da Luz que brilhou nas trevas e que as trevas não compreenderam".
    • Jesus viveu o obscurecimento da luz divina de que a alma cristã deverá participar para passar de suas próprias trevas à luz admirável de Deus.
    • O obscurecimento pelo qual o Pai se ocultou momentaneamente nas trevas com seu Filho.
    • Mesmo nas trevas da morte (antes da Ressurreição), Jesus é uma coluna de fogo que ilumina a passagem do Mar Vermelho e do deserto, rumo à terra prometida.
      • Citação em Latim: "Haec igitur nox est quae peccatorum tenebras columnae illuminatione purgavit" (Vigília pascal. Benção do Círio).
      • Tradução da Citação: "Eis a noite que dissipou as trevas do pecado pela luz de uma coluna de fogo".
  • A União de Jesus com o Pai pela Contemplação, pelo Amor e pela Ação.
    • Jesus está unido a seu Pai em uma só natureza divina, numa visão e num amor perfeitos, sendo Ele próprio o esplendor do Pai e a imagem da sua glória.
    • Além da união pela contemplação e pelo amor, o Filho do homem estava unido ao Pai pela ação.
    • As palavras de Jesus: "Saí do Pai e vim ao mundo" (Jo 16, 28) e "É preciso que eu faça as obras d'Aquele que me enviou" (Jo 9, 4).
    • A razão de existir de Jesus é executar aquilo para que foi enviado: "Meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que me enviou e realizar sua obra" (Jo 4, 34).
  • A Manifestação do Pai e a Doutrina do Filho.
    • É nas obras do Filho que o Pai se manifesta ao mundo, pois as obras do Filho são, ao mesmo tempo, as obras do Pai, e a doutrina do Filho é a doutrina do Pai.
    • Quando o Filho fala, é o Pai que n'Ele fala.
    • As obras do Filho decorrem de sua inefável união com o Pai, sendo sua expressão viva e vivo testemunho.
    • As palavras do Filho sobre a crença em Suas obras: "Se não faço as obras do meu Pai, não me creiais. Mas se as faço, mesmo que não me quisésseis crer, crede em minhas obras, a fim de que saibais e conheçais que o Pai está em mim e que estou no Pai" (Jo 10, 37-38).
    • A confirmação da união e das obras: "Não crês que estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que vos digo, não as digo de mim mesmo: o Pai que permanece em mim faz Ele próprio estas obras" (Jo 14, 10).
  • O Objetivo da Ação Exterior do Pai no Filho: a Glória em Sua Criação.
    • A ação exterior não é só para o Pai, pois sua glória consiste em dar fruto em sua criação, nos seres espirituais (anjos e homens).
    • Sua glória está em fazê-los participantes da sua vida divina e do conhecimento que tem de Si mesmo.
    • O fim é que os seres se tornem seus filhos e não façam senão um só com seu Filho único, deificados n'Ele e ligados ao Pai na unidade do Espírito Santo.
  • A Ação de Jesus e a Promessa da União Íntima.
    • A ação de Jesus no mundo consiste em fazer com que os homens participem da sua própria visão do Pai e em uni-los, n'Ele, a seu Pai.
    • A união é prometida pela escuta e recebimento do ensinamento do Pai (levando a Cristo) e pela Eucaristia: "Quem quer que escute meu Pai e receba seu ensinamento vem a mim. . . Como o Pai, que é vivo, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim aquele que me come viverá por mim" (Jo 6, 46).
    • A união mais íntima se realiza no mistério da Eucaristia, prefigurando a contemplação sem fim de Deus Pai, na eternidade.
      • Citação em Latim: "Fac nos, quaesumus, Domine, divinitatis tuae sempiterna fruitione repleri: quam pretiosi corporis et sanguinis tui temporalis perceptio praefigurat" (Pós-comunhão da Missa do Corpo de Deus).
      • Tradução da Citação: "Concedei-nos, Senhor, na eternidade, aquele gozo inesgotável de vossa divindade que anuncia em figura, neste mundo, a comunhão de vosso corpo e sangue precioso".
  • A Chamada para a Contemplação e a Ação.
    • O Pai realiza sua obra através do Verbo encarnado para levar os homens à contemplação e dar-lhes um antegozo dela.
    • O homem é chamado a unir-se à contemplação do Pai através do Filho (na terra e no céu), o que supõe estar unido à "ação" do Pai através do Filho.
  • O Apostolado e a Contemplação como sua Origem e Termo.
    • Jesus enviará seus apóstolos ao mundo pelas mesmas razões que o Pai O enviou.
    • O Filho realiza a obra do Pai e se manifesta em seus apóstolos: "Como me enviaste ao mundo, assim eu os envio ao mundo" (Jo 17, 18).
    • A missão: "Ide, pois, ensinai a todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28, 19).
    • O batismo é a iniciação à vida divina, à vida eterna, ao conhecimento do único verdadeiro Deus e de Jesus Cristo por Ele enviado.
    • O fim do apostolado é levar o mundo inteiro à contemplação do Pai no Filho.
    • Apostolado cristão e o poder do alto:
      • Um apostolado que não tem origem na união com Deus e termo na contemplação "não é um apostolado cristão".
      • Como se poderia revelar Aquele a quem não se conhece e dá-l'O a conhecer "sem ter recebido poder do alto?"
      • Ninguém pode vir ao Filho a não ser pelo Pai.
      • Um apostolado que não é alimentado por contemplação permanece obra puramente humana.
      • O Espírito Santo é o elo de todos os homens na caridade de Cristo, o "vinculum perfectionis", o vínculo da perfeição.
      • Um apostolado não movido pelo Espírito Santo levaria à dissensão, pois a obra do espírito humano é "dissensão e discórdia" (1 Cor 3, 3; Tgo 3, 14-18).
  • A Contemplação e a União com a Igreja.
    • Não há contemplação para o homem separado de Cristo, sem o qual ninguém pode vir ao Pai.
    • A vida contemplativa se realiza pela união com Deus em Cristo, sendo essa união invisível possível graças à união visível com todos os nossos irmãos, n'Ele e no Espírito de caridade.
    • São João sobre o amor fraterno e o conhecimento de Deus: "Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus habitará em nós e seu amor será perfeito em nós. . . Aquele que ama nasceu de Deus e O conhece" (1 Jo 4, 12, 7).
    • A contemplação é o fruto da união com todos aqueles que fazem um só em Cristo.
    • A união mística com Deus se atinge pela união com a Igreja, não como instituição jurídica, mas como pessoa mística, o "pleroma" do Verbo encarnado, que vive por seu Espírito divino.
  • Ação e Contemplação como Expressões da Vida da Igreja.
    • Ação e contemplação decorrem da vida em Cristo, completam-se e realizam-se uma à outra.
    • A impossibilidade de produzir fruto na ação ou de saborear os frutos da contemplação se não se permanecer no amor de Cristo (Ele é a vinha, nós somos os sarmentos).
  • O Ensinamento de Jesus durante a Ceia.
    • As palavras de Jesus na Ceia (Quarto Evangelho) são o testamento divino sobre a ação e a contemplação no mistério da união com o Pai e com Ele.
    • Essas palavras foram legadas juntamente com o sacramento do seu amor (a Eucaristia), onde a doutrina se concretiza e realiza.
    • A raiz ontológica da vida nova em Cristo é o amor:
      • Amar a Ele é viver e permanecer n'Ele.
      • Não O amar é estar morto, cortado d'Ele, rejeitado como galho morto.
    • O amor é a vida que se manifesta na ação e na contemplação, devendo manifestar-se em ambas.
  • A Vida Ativa como Obrigação.
    • A vida ativa é guardar os mandamentos de Cristo: "Sois meus amigos se fizerdes o que vos mando" (Jo 15, 14).
    • A vida ativa é uma obrigação para todos os que pretendem permanecer unidos à vinha mística: "Aquele que não me ama não guardará minhas palavras" (Jo 14, 24).
  • A Vida Ativa Conduzindo à Contemplação.
    • A obediência à lei de amor (deixando a vida de caridade abundar) leva a conhecer o Deus de amor e a senti-l'O como uma presença que permanece e age nos corações.
    • A promessa do Pai e do Espírito de Verdade: "Se alguém me ama, guardará minha palavra, e meu Pai o amará e viremos a ele e nele faremos nossa morada... e o Pai vos dará o Espírito de Verdade que o mundo não pode receber, porque não o vê e não o conhece; mas vós, vós o conheceis, porque ele permanece no meio de vós e ele estará em vós" (Jo 14, 23, 17).
    • A plenitude da contemplação: "Naquele dia, conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós" (Jo 14, 20).
  • A Unidade Intrínseca da Ação e da Contemplação.
    • Toda contemplação é uma participação à contemplação do Pai por Cristo.
    • Toda ação só tem valor se for o prolongamento da obra do Verbo encarnado na terra e a do seu Pai através d'Ele.
    • A vida ativa e a vida contemplativa são apenas dois aspectos da vida divina, levada por Cristo através de seus membros pela ação do Espírito Santo.
    • O fim da contemplação é tornar conscientes, não só de Deus em Si mesmo, mas de Deus vivo na sua Igreja.
    • O fim da vida ativa é propagar a caridade de Cristo até as extremidades da terra e fazê-la penetrar em todos os domínios da existência humana, para que Deus esteja todo em tudo e todas as coisas sejam renovadas em Cristo.
  • O Mistério de Cristo em São Paulo.
    • Todo o ensino do Novo Testamento sobre a ação e a contemplação está contido no Mistério de Cristo ou "Mistério" (denominação de São Paulo).
    • O Mistério foi anunciado pelos Apóstolos para que os homens conheçam a Cristo e sejam capazes de:
      • "compreender, com todos os santos, qual a largura e a extensão, a profundidade e a altitude".
      • "conhecer o amor de Cristo que ultrapassa todo conhecimento".
      • Serem "repletos de toda a plenitude de Deus" (Ef 3, 17-19).
    • A contemplação ilumina "a economia do mistério oculto desde o início em Deus, o Criador de todas as coisas" (Ef 3, 9).
    • O acesso à "sabedoria multiforme de Deus" (Ef 3, 10) se dá através desse mistério (a experiência de Cristo vivendo em nós, nos irmãos e na Igreja toda).
    • A recepção do Espírito que vem de Deus para que se conheça as coisas dadas por sua graça, quando a caridade nos faz penetrar no âmago do mistério.
    • As afirmações do cume da união: "Escrutamos todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus" e "Temos o Espírito de Deus" (1 Cor 2, 12, 10, 16).
  • A Diversidade de Dons e Vocações no Corpo de Cristo.
    • São Paulo declara que ação e contemplação não têm sempre a mesma importância para os diferentes membros de Cristo, e que se revestem de formas diversas.
    • As diversidades: "Há diversidade de dons... diversidade de ministérios. . . diversidade de operações. . . Assim, o corpo não é constituído por um só membro, mas por vários" (1 Cor 12, 4-6. 14).
    • Embora ação e contemplação estejam misturadas em toda vida cristã, a perfeição de cada membro consiste em encontrar seu lugar próprio e providencial no Corpo de Cristo e desincumbir-se de sua função particular.
    • Exemplos de vocações:
      • Uns se devotarão a obras de caridade, outros pregarão e administrarão os sacramentos, outros darão prova de dons excepcionais.
      • Outros serão testemunhas da união de Cristo com a Igreja pela santidade do estado matrimonial.
      • Vocação especial para as virgens e para as viúvas.
      • Maior perfeição exigida dos sacerdotes e dos bispos.
    • Todos devem amar e conhecer a Cristo e crescer n'Ele até a plena maturidade espiritual, nos limites de sua vocação particular.
  • A Distinção entre Vida Ativa e Vida Apostólica nos Atos dos Apóstolos.
    • A decisão dos apóstolos de delegar funções aos diáconos: "não convém que deixemos a palavra de Deus para servir às mesas" (At 6, 2-3).
    • Os escolhidos para as necessidades materiais deviam ter vida interior intensa: "de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria" (At 6, 2-3), o que na linguagem do Novo Testamento significa serem contemplativos.
    • A fraqueza do vocabulário moderno, sendo "cheio do Espírito Santo" mais exato do que "contemplativo", por sugerir uma contemplação que pode mudar-se em ação sem perder força.
    • O exemplo de Santo Estêvão, o primeiro mártir:
      • Estava "cheio de graça e de força", e sua santidade fazia "prodígios e grandes milagres no meio do povo".
      • Cheio de zelo apostólico, os judeus "não podiam resistir à sabedoria e ao espírito com que falava" (At 6, 8-10).
    • Essa perfeição é o que o Novo Testamento reputava ser uma vocação de vida ativa.
    • Em princípio, a vida ativa só é possível numa profunda união interior com Cristo e grande docilidade a seu Espírito divino.
  • O Exemplo da Vida Puramente Contemplativa e a Vocação à Virgindade em São Paulo.
    • São Paulo quase não fala de uma vida puramente contemplativa, mas um exemplo é encontrado no capítulo sobre o estado de virgindade.
    • O Apóstolo admite que a virgindade é preferível ao estado matrimonial, pois permite uma vida interior mais profunda.
    • O conselho de virgindade é "para que vos seja possível orar ao Senhor sem distrações" (1 Cor 7, 35).
    • Isso faz supor uma vida de semi-retiro e de orações na Igreja dos Apóstolos, mas São Paulo não supõe contradição entre virgindade e apostolado ativo.
  • O Retiro de São Paulo à Arábia e a Perfeição Contemplativa.
    • São Paulo declara na Epístola aos Gálatas que, logo após a conversão na estrada de Damasco, retirou-se à "Arábia".
    • O destino pode ter sido o deserto para oração, mas não é indispensável crê-lo.
    • São Paulo pode ter se dirigido para o sul de Damasco para pregar, mas apenas relata a viagem sem detalhar a atividade.
    • Devido à extraordinária importância de sua visão miraculosa na estrada de Damasco (onde viu todo o "Mistério do Cristo"), não havia motivo para passar muito tempo em contemplação e orações.
    • Ele atingira o cume da contemplação e foi enviado aos Gentios pelo próprio Cristo ressuscitado.
    • A maneira milagrosa e perfeita pela qual São Paulo se tornou um dos maiores contemplativos é um fortíssimo argumento em favor da necessidade da contemplação como fundamento da vida apostólica.
    • O contemplativo cristão é aquele que está cheio de sabedoria e de caridade no Espírito de Cristo, com um conhecimento perfeito e amor perfeito de Jesus crucificado, e que, n'Ele, está unido ao Pai.
    • Essa união é um dom de Deus, e a disposição favorável para recebê-la é a simplicidade de uma fé humilde.
  • O Desenvolvimento da Contemplação na História da Igreja.
    • Nos tempos primitivos, as graças místicas mais elevadas estavam ligadas à graça do martírio (expressão suprema da fé cristã).
    • Com o tempo e o arrefecimento do ardor, e a diminuição das perseguições, o Espírito Santo conduziu os cristãos a outras arenas mais espirituais: as do deserto (onde se defrontaram com as tentações do demônio, como o Salvador).
  • A Distinção entre Vida Contemplativa e Vida Ativa nos Padres do Deserto.
    • Clemente e Orígenes viram aparecer a distinção entre vida contemplativa e vida ativa.
    • A doutrina tradicional oriental é resumida por Cassiano.
    • O monge deixa o mundo para buscar o "Reino de Deus", que é a divinização da própria alma pela contemplação desde esta vida e pela visão perfeita de Deus na outra.
    • O fim imediato dos esforços ascéticos é a pureza do coração, à qual tudo na vida monástica é subordinado.
    • A vida ativa predomina nas comunidades de cenobitas.
    • A vida contemplativa é mais pura e profunda, e mais difícil, sendo prerrogativa do solitário.
    • A pureza do cenobita é menos considerada, mas é mais evangélica e mais segura.
    • A contemplação é superior à ação, pois se propõe a completá-la e supri-la.
    • Cassiano afirma categoricamente que o Senhor pôs o bem principal "in theoria sola, id est in contemplatione": "Vedes, portanto, que o Senhor pôs o bem principal somente na theoria, isto é, na contemplação" (Cassiano, Collatio I, 7. MPL 49, 492).
  • A Vocação Monástica e a Alegoria de Marta e Maria.
    • A vida monástica tende a uma união tranquila e constante da alma com Deus (o esforço principal e a destinação imóvel do coração): "Hic ergo nobis principalis debet esse conatus, haec immobilis destinatio cordis iugiter affectanda, ut divinis rebus ac Deo mens semper inhaereat" (Cassiano, Collatio I, 7. MPL 49, 490).
    • Cassiano retoma a alegoria de Marta e de Maria (já usada por Orígenes), onde Jesus afirmou que a contemplação era o bem supremo (ao preferir Maria).
    • O louvor a Maria não é censura a Marta: a atividade de Marta é menos perfeita que a contemplação de Maria, mas ambas são necessárias e agradáveis ao Senhor.
    • O ideal na vida monástica é a contemplação de Maria, mas muitos atingirão a perfeição pelas tarefas de Marta.
    • A excelência própria da vida ativa e cenobítica de Marta (que nem a contemplação do solitário pode substituir):
      • O fim do cenobita é "mortificar e crucificar suas vontades próprias".
      • Ele deve viver "sem se preocupar com o dia seguinte" (segundo o mandamento evangélico).
      • "É absolutamente certo que essa perfeição não pode ser cumprida por ninguém a não ser pelo cenobita" (Collatio XIX, 8. MPL 49, 1138).
  • As Bases da Doutrina de São Bernardo de Claraval.
    • As bases do ensinamento de São Bernardo sobre a vida ativa e a vida contemplativa desenvolvem a tradição resumida por Cassiano.
    • A vida monástica para São Bernardo compreende elementos ativos e elementos contemplativos.
    • A contemplação é a mais elevada expressão da vida monástica e cristã, mas se apoia sobre a ação e tende a transbordar em atividade apostólica em favor das almas.
    • Nem todos atingem os cumes da contemplação, mas todos devem viver segundo o Espírito de Cristo e ser-lhe unidos, qualquer que seja a vocação ou função.
    • São Bernardo dá menos importância à vocação do solitário do que Cassiano, e não pensa que a contemplação seja privilégio do anacoreta.
    • A vida contemplativa profunda se concilia com as numerosas atividades de uma comunidade de cenobitas (o quadro ordinário da vida contemplativa para São Bernardo).
  • O Sermão de São Bernardo sobre o Cântico dos Cânticos e o Ósculo do Espírito Santo.
    • O oitavo sermão sobre o Cântico dos Cânticos descreve a união da alma com Deus, na contemplação mística.
    • O comentário do versículo "Osculetur me osculo oris sui" (a esposa exprime o desejo de união mística).
    • A união mística é uma participação ao amor e ao conhecimento que unem o Pai e o Filho (o "amplexo" dessas Pessoas divinas) através do Espírito Santo.
    • Receber o ósculo de sua boca é receber o sopro do Espírito Santo: "non est aliud quam infundi Spiritu Sancto" (não é outra coisa senão ser infundido pelo Espírito Santo).
    • O Espírito Santo é o elo que une o Pai e o Filho: sua "paz", seu "amor", sua "unidade".
      • "Patris Filiique imperturbabilis pax, gluten firmum, individuus amor, indivisibilis unitas" (Id.) (Paz imperturbável do Pai e do Filho, glúten firme, amor individual, unidade indivisível).
    • A esposa (a alma contemplativa) pede ao Pai que Ele próprio se revele e que revele o Filho (o dom do Espírito Santo).
    • O desejo não é uma abstração (contemplação, graça da oração infusa, união mística), mas uma Pessoa divina, uma posse objetiva de Deus em sua realidade e amor infinitos.
  • O Mistério da Liberdade e Gratuidade do Amor Divino.
    • Receber o Espírito Santo é receber o amor e o conhecimento do Pai e do Filho, e o conhecimento do Espírito que Eles enviam.
    • O conhecimento de Deus no mistério de sua própria liberdade divina.
    • Deus não é forçado a Se revelar por virtudes ou técnica mística, mas concede a revelação íntima aos pequenos por amor e misericórdia (elemento de gratuidade e liberdade).
    • O conhecimento de Deus é uma questão de sabedoria, não de conhecimento científico.
    • O conhecimento se dá pelo dom do amor de Deus por nós, e não só pelo amor do homem por Ele.
    • Deus dá-Se a Si mesmo (e não só o que criou), e só por esse dom de Si mesmo pode ser íntima e perfeitamente conhecido.
  • O Ósculo do Filho e a Plenitude do Amor.
    • O Filho revela a Si mesmo e o Pai por um ósculo (o Espírito Santo), testemunhado por São Paulo: "Deus no-l'O revelou por seu Espírito".
    • O dar e o revelar se implicam no Espírito: "dando o Espírito por quem revela, revela também o Espírito. Dando-O, revela-O e, revelando-O, Ele O dá".
    • O "ósculo bem-aventurado" faz com que Deus não seja só conhecido, mas amado enquanto Pai.
      • "Felix tamen osculum, per quod non solum agnoscitur Deus sed et diligitur Pater; qui nequaquam plene cognocitur, nisi cum perfecte diligitur" (No entanto, um ósculo feliz, pelo qual Deus não é só conhecido, mas também amado enquanto Pai; o qual de modo algum é plenamente conhecido, a não ser quando é perfeitamente amado) (Sermo 8 in Cântica, ns. 5-9, 812 b e 814 b).
  • O Fruto do Espírito Santo na Alma Contemplativa.
    • A recepção do Espírito Santo enche a alma contemplativa de caridade, de verdade e de sabedoria.
    • "In osculo isto nec error locum habet, nec tepor" (Neste ósculo, nem o erro tem lugar, nem a tibieza) (Ibid, n. 6, 813).
    • O fervor amoroso transbordará em zelo apostólico.
    • Os grandes exemplos de contemplativos-apóstolos: São João Evangelista e São Paulo (Apóstolo dos Gentios), e também São João Batista (modelo e patrono dos monges, missionários e sacerdotes).
    • O apostolado deriva do conhecimento de Deus recebido na união divina e no "ósculo de amor e de paz".
      • O amor ultrapassa todo conhecimento, e a paz ultrapassa toda compreensão: "Osculum plane dilectionis et pacis; sed dilectio illa supereminet omni scientiae; et pax illa omnem sensum exsuperat" (Ósculo de amor e de paz claramente; mas aquele amor supera toda ciência; e aquela paz supera todo sentido) (Ibid, n. 7, 813).
  • A Diversidade das Almas e Vocações.
    • O sermão anterior (Sermo 7 in Cantica, n. 2. MPL 183, 807) assimila a esposa à anima sitiens Deum (alma sedenta de Deus).
    • Sugere que sua vocação particular é diferente das almas que não buscam o próprio Deus ou o ósculo de sua boca, mas a recompensa de bons e fiéis serviços, ou numerosa descendência, ou a ciência dos sábios.
    • A distinção entre a esposa de um lado e o escravo, o mercenário, o filho e o discípulo de outro.
    • São Bernardo enumera diferentes graus da vida espiritual, sugerindo a possibilidade de vocações diversas no seio da vocação monástica ou cristã.